18 junho 2014

Não aprendemos nada com os japoneses

Os japoneses surtariam na Vila Madalena
Já vai fazer uma semana que a Copa do Mundo do Brasil começou. Faz uma semana que estamos convivendo com gringos, pra cima e pra baixo, dividindo não só a calçada com eles, mas também um pouco da cultura. Não tem como dizer que não. Eles trazem a bagagem deles e nós ofertamos as nossas boas-vindas.

Mostramos pros estrangeiros, logo de cara, que sabíamos torcer e empurrar um time em campo. Provamos pra eles que somos mesmos muito receptivos e calorosos com nossos visitantes. Que gostamos de ensiná-los a sambar, vide J-Lo, mas que também gostamos de aprender com eles. Pena que a lição oferecida pelos visitantes é logo esquecida.

No último final de semana, ficamos boquiabertos quando japoneses viraram notícia ao recolher o próprio lixo num estádio depois do jogo. O link foi compartilhado mais do que o pão na Santa Ceia pelas redes sociais. Todo mundo se referiu aos japoneses como exemplo de civilidade, um povo superior, digno de ser copiado. Alguns, mais do contra, se perguntaram o motivo de tanto fuzuê pra uma coisa tão básica e óbvia: recolher o próprio lixo. É como apagar as luzes depois de sair do quarto, fechar a torneira enquanto se escova os dentes. Bá-si-co!

Pois bem, a prova de que realmente não tínhamos aprendido nada com os japoneses veio hoje, um dia depois do segundo jogo do Brasil. A Vila Madalena, em São Paulo, virou o ponto-de-encontro pra quem quer assistir as partidas da Copa longe da bagunça do Anhangabaú. Mesmo não tendo estrutura pra receber nem metade da torcida do Corinthians, antes mesmo do expediente acabar, as ruas ficam tomadas por muita gente. MUITA mesmo. É impossível andar, muito menos dirigir.

O problema é que muita gente junta não faz mutirão de limpeza como ensinaram os japoneses. Multidão brasileira faz o contrário disso: emporcalha mesmo, pensando em bater recorde de sujeira pra entrar no Guinness. Não tem lixeira o suficiente? Guarda na bolsa, leve um saquinho, guarde até encontrar onde jogar fora. Falta de lixeira não é desculpa pra deixar seu lixo por aí.

Hoje, antes das 7 da manhã, uma das principais ruas do bairro estava “enfeitada” com montanhas de garrafas e latas de cerveja, caco de vidro, restos de bandeira e um aroma nada agradável de mijo. Até o  gari não acreditou no que viu, imagina o surto que os japoneses tiveram ao ver a notícia – de um comportamento inverso ao deles – na TV.

Visitantes se preocupam mais com o nosso país do que nós mesmos e isso é vergonhoso. Estamos atrasados na civilidade. De que adianta compartilhar uma notícia exemplar se não estamos interessados em seguir o exemplo dado? Isso é hipocrisia e, infelizmente, estamos mostrando ao mundo que, além de samba, somos bons nisso também.

Depois do que vi (e tive que cheirar) hoje de manhã na rua onde trabalho, vou acreditar menos ainda no que pessoas compartilham em redes sociais. Se tratam animais abandonados com o mesmo descaso que limpam a rua, tenho dó dos bichos. Das pessoas, sinto vergonha mesmo. 

30 maio 2014

Maldito zíper!

Já moro sozinha há um bom tempo e, de lá pra cá, aprendi a me virar muito bem sem a ajuda de ninguém. Pago todas as contas da casa, sei trocar a resistência de chuveiro, o próprio chuveiro, lâmpadas, consertar pequenas infiltrações, instalar aparelhos eletrônicos, costurar, cozinhar umas coisas mais elaboradas e uma lista (quase) sem fim de coisas que duvidei conseguir fazer quando aceitei partir pra essa vida longe da barra da saia da minha mãe. Mulher independente deveria se orgulhar das coisas que faz e daquilo que tem que aprender na marra.

Qualquer uma de nós, que manda na própria vida e na própria casa, aprende – de cara – a driblar os potes de palmitos, lacrados e fechados com senha por um homem com o pênis do tamanho de uma azeitona, que precisa provar na rosca de uma embalagem o quanto é forte.  Tenho essa teoria sobre os potes de palmito, molho de tomate e afins, mesmo sabendo que são fechadas por máquinas – provavelmente, ajustadas por homens.

Enfim, a gente aprende técnicas pra trocar um pneu sozinha, a reconhecer peças do carro pelo nome e a sacar quando o mecânico está apenas enrolando, querendo nos passar a perna com a tal rebimboca da parafuseta.

Nos orgulhamos da nossa independência e deixamos orgulhosas aquelas que queimaram o sutiã em praça pública pelos direitos iguais. O problema é que essa independência toda vai por água abaixo quando é testada em alguns momentos, fazendo você questionar toda a sua força de vontade em se virar sozinha...

Zíper nas costas dos vestidos te diz alguma coisa?

Quem é que nunca quis se jogar da janela quando não conseguiu fechar ou abrir a merda do zíper daquela roupa que gosta tanto? E da pulseira chiquérrima que fica linda no braço quando você, depois de uma guerra mundial com o fecho, consegue ajustá-la no pulso?  

Deus – ou seja lá quem foi que criou os pares – mostra nessas horas que realmente ninguém nasceu pra viver sozinho. Ele colocou toda essa teoria no zíper. Nas costas. Dos vestidos. Que mais amamos.

Praticamente, toda mulher já passou por isso: deixou de usar ou comprar uma roupa que gosta porque ela só pode ser fechada por trás, com a ajuda de um exército, do porteiro ou do vizinho. Como você não pediria o auxílio de nenhum deles, depois de exercícios de alongamentos dignos de deixar até a Madonna de queixo caído, você larga a peça na balcão da loja ou, se for daquelas que acredita piamente que um dia vai conseguir se vestir s-o-z-i-n-h-a e leva a bendita pra casa, esquece-a no fundo do armário, cansada da maratona que se torna vestir uma roupa assim.

Não manjo nada de moda, costura ou coisa do tipo, mas – poxa vida, estilistas – qual o problema com os zíperes que vão do lado, daqueles fáceis de abrir e fechar, que dispensam a ginástica na hora de vestir? Concordo que é super sexy precisar pedir a ajuda dos companheiros pra fechar um zíper que vai da bunda até a nuca, mas isso vai bem nos filmes, nos comerciais de lingerie, sabonete ou cerveja. Na vida real, a coisa é complicada e frustrante.

No final das contas, um simples zíper mal colocado faz a gente repensar a vida, rever conceitos e acabar achando que esse papo de independência é coisa de feminista que veste calça jeans, moletom e camiseta Hering, sem nenhuma vaidade...

25 maio 2014

Do que você abriria mão?

"Minha mãe não gosta de café. Mas faz café há 24 anos todos os dias pro meu pai. Isso é amor. O amor se esconde nos detalhes". E foi esse detalhe que me colocou pra pensar hoje.

Muito prazer, meu nome é Juliana Washington. Trabalho igual retardada, por isso, muitas vezes, me sobra pouco tempo pra cuidar do básico, tipo ir ao supermercado ou me inscrever numa academia, levar uma vida saudável e responder e-mails ou mensagens assim que os recebo. Meu trabalho está em primeiro lugar. Sou a primeira a chegar – mesmo que 2 horas antes do meu expediente – e a última a sair. Gosto do que faço, seja isso o que for. E vou sempre me preocupar em fazer direito, porque a opinião dos outros, neste caso, importa pra mim.

Posso me considerar independente. Moro sozinha, no meu próprio apartamento, decorado – milimetricamente - do jeito que eu gosto. Tenho meu lado preferido da cama, aquele perto da porta. Pago todas as minhas contas em dia, inclusive o valor total das faturas de cartão de crédito, que cobrem boa parte dos supérfluos que consumo todos os meses: roupas, maquiagem, bijus, além de saídas com amigas, ingressos pra shows e almoços fora de casa. Eu não cozinho, não gosto, então, já dá pra imaginar o quão difícil será me ver na cozinha preparando algo pra comer. Seja pizza, macarrão ou um sanduíche.

Adoro rock n’ roll. Não pagode, axé, música latina ou MPB. Rock mesmo. Você nunca irá me encontrar numa apresentação do Victor & Léo ou sorrindo num karaokê. Gosto de música pesada, das antigas, que me fazem lembrar coisas muito bacanas que já vivi. Tenho minhas bandas preferidas e minhas baladas, também. Nelas, tenho alguns conhecidos, que vão me cumprimentar e com quem serei sempre atenciosa. A maioria homem, que já me defendeu de muito engraçadinho.

Odeio falar ao telefone. Bater papo em chats também não está na minha lista de coisas favoritas. Uso os dois meios pra combinar encontros, porque prefiro o pessoalmente, o olho no olho. Amo intensamente. Prefiro o junto ao separado. Acredito em histórias de amor. Gosto de agradar. Ouço mais do que falo, apesar de precisar ser escutada, às vezes, também. Não sou boa em dar conselhos. Choro quando sofro. Não sei jogar. Falo o que sinto, porque nunca sei se terei outra oportunidade. Sou daquelas que dá mais chance do que merecem, antes de desistir de vez.

Gosto de coisas com sabor de chocolate e cheiro de baunilha. Falo o mínimo quando acordo. Tento sempre ver o lado positivo das coisas. Gosto de ajudar. Odeio café e cerveja. Prefiro os drinks com Coca-Cola, mas tenho bebido cada vez menos.

Prefiro seriados a filmes, porque acabo dormindo no meio deles. Mas gosto dos engraçados, porque de séria já basta a vida. Amo livros, biografias pra ser mais específica, e não tenho paciência pra discutir política. Não sou do tipo que senta numa mesa de bar e finge ser a intelectualizada pra chamar a atenção de gente que finge entender bem a situação atual do país. Eu prefiro a verdade, sempre. Mas vou sorrir e concordar com aqueles que dividem a mesma opinião que eu. Não espere mais do que isso...

Gosto de escrever. Uso a internet como ferramenta de pesquisa, sou curiosa com assuntos que me dispertam o interesse, quero saber de tudo. Adoro fotos e seria capaz de passar horas olhando pra elas. Já trabalhei com fofoca, joguei pro alto, não concordava com a invasão, por isso a vida alheia não me interessa. 

Tenho 37 anos e meio e gostaria de ter a minha própria família: crianças pra ensinar o que sei e aprendi e marido pra dividir os lados bom e ruim da vida. 


Já abri mão de muitas das coisas listadas acima ao longo da vida pelos outros. Já fiz o que não gosto só pra agradar. E descobri que poucos são capazes do mesmo por alguém. Não é todo marido que valoriza o café da esposa. Abrir mão de algo que molda aquilo que você é não é pra qualquer um. 

E, você, do que seria capaz de abrir mão por alguém? 

14 maio 2014

Dar pra receber

Tenho ouvido muita reclamação sobre o desequilíbrio nos relacionamentos. Não sei se é coisa de hoje, se é a reinvindicação da vez, mas muita gente tem falado por aí que anda dando mais do que tá recebendo, ou que não tá recebendo nada, ou entregando o que tem pra quem não merece receber.

Dá aquela impressão de que nem sempre a gente recebe o que merece. Acabamos achando que nos dedicamos mais do que os outros e, no final das contas, percebemos que fomos os únicos a colocar o esforço na coisa toda.  Às vezes, é verdade; às vezes, é exagero nosso.

Relações são feitas de trocas. É assim desde a época feudal, quando a economia não era movida a base de moeda e o que prevalecia era o escambo: se um plantava batata e o outro, banana, trocavam-se os alimentos e todo mundo saía ganhando. A gente dá, sim, esperando receber algo de volta. Nem que seja um sorriso ou um “muito obrigado”. Trabalhamos pra receber um salário, emprestamos o ombro pros amigos porque sabemos que eles emprestarão o deles também quando for a nossa vez de chorar, damos carinho, amor, respeito esperando (e merecendo) receber todo o carinho, amor e respeito entregue. Do contrário, tudo não passaria de um baita desperdício.

Quando achamos que trabalhamos mais do nos é pago, procuramos outro emprego, certo? Por que – raios - então, encontramos tantas desculpas pra não fazer o mesmo nas outras relações? Quando estamos sempre disponíveis pros amigos e sozinhos quando precisamos deles, ou damos amor demais pra quem só nos dá dor de cabeça é hora de colocar as coisas na balança e ver se o “salário” tá cobrindo as contas ou te deixando no vermelho no final do mês.

De que vale dar toda a segurança do mundo, garantias e tal, se pra afastar o medo dos outros somos nós que ficamos desprotegidos? A verdade é que você merece receber de volta todo o amor que dá, pago na mesma moeda e sem descontos.  De complicada já basta a economia do país, os relacionamentos não precisam também estar na miséria, né?

25 abril 2014

As desculpas que damos

Hoje recebi um email de alguém que achou o blog por acaso (adoro como as pessoas vem parar aqui!!!) e que me contou um pouco da história dela. É lógico que me vi ali, só que do lado de fora (eita sensação estranha!), lendo algumas coisas que já aconteceram na minha vida inúmeras vezes. E, em todas elas, achei que era o destaque do Livro dos Recordes na categoria "Idiota do Ano". Pra minha alegria, ao ler o email, percebi que não estou sozinha. A verdade é que nunca estamos.

Não vem ao caso contar aqui a experiência dela. Mas pensa na sua vida aí. Busque mentalmente as merdas que você fez ou as coisas que se sujeitou por alguém ou algo que queria muito, e que por conta disso, deixou de lado e enterrado num buraco bem fundo, todos os seus conceitos do que é certo ou errado ou valores em prol de algo que você acreditava que era. Só que não foi! A vida resolveu assim, que não era pra ser. Você não machucou ninguém no caminho, não enganou e nem mentiu... a não ser a você mesmo.

Mesmo sabendo que é "errado", a gente tenta, porque quer. E isso é motivo suficiente. Não é teimosia, é querer. O problema é que os olhos só conseguem enxergar aquilo que nossa cabeça tá pronta pra compreender. Nada além. Você já deve ter ouvido aquele conselho supimpa que diz pra não esquecer a cabeça quando se apaixonar por algo ou alguém, né? Ótimo... É lindo na teoria, bordaria uma toalha com essa máxima, mas na prática a gente sabe que não é bem assim, o coração incha e o cérebro atrofia. E é aí que surgem as desculpas que damos, porque parece que nessas horas a cabeça só serve pra isso.

Todas as desculpas que criamos são um passo pra perto da catástrofe. Ninguém é capaz de segurar a gente no lugar onde não queremos estar, ou seja, se ficamos é porque queremos e temos absoluta certeza de que pertencemos ali. E fazemos isso em todas as áreas da nossa vida.

Acreditamos em "eu te amo" porque soam bem e, quem diz, sabe que gostaríamos de ouvir, mas dizem só pra conseguir algo em troca. Desculpamos traições e mentiras porque acreditamos que este ato nobre vai colocar uma luz no coração de quem nos machucou, quando na verdade a única coisa que estamos dando é a chance de fazerem aquilo de novo. Acreditamos que só porque estamos na TPM podemos comer impunes e livres de calorias extra uma barra de chocolate e um pote de sorvete. Acreditamos que só porque o sapato estava em liquidação, ele tem que passar da vitrine pro nosso armário. "Ah, mas eu tinha todas as cores, só faltava o rosa", "Poxa, mas foram só uns goles a mais depois de um dia tenso de trabalho" e, sem nos darmos contas, estamos protegendo aquilo que nos faz mal, porque acreditamos que ali está nossa última passagem pra felicidade. A gente desculpa e cria desculpas acreditando que vai mudar, que vai nos fazer bem...

Só que não!

O que nos faz (ou deveria fazer) feliz é leve, não solicita desculpas ou explicações detalhadas, é descomplicado e praticamente de graça. Não faz sofrer, não machuca e nem nos faz mentir, principalmente pra nós mesmos.

24 abril 2014

Emprego dos sonhos?

Por que acabei de me demitir da Apple
Há cerca de um mês, depois de anos de design em várias indústrias, produzindo websites para clientes rápidos, trabalhando em startups fracassadas e discutivelmente bem sucedidas, e me distraindo com projetos paralelos aleatórios, eu fui convidado para uma entrevista na Apple. Eu não podia acreditar. Tinha acabado de refazer meu portifólio, e agora era bom o suficiente para ser considerado candidato na Apple. Ao meu ver, a Apple é, sem dúvidas, a melhor empresa em que um designer pode trabalhar.
Eles definiram uma data para a entrevista, e eu comecei a me preparar para um monte de perguntas e problemas difíceis que eu teria que resolver em frente ao time de design. Também imaginei que uma grande companhia como a Apple teria várias rodadas de entrevistas antes de tomar a decisão final. Fiquei surpreso quando tive que fazer uma entrevista básica com três pessoas apenas, por menos de uma hora. Dirigi de volta para São Francisco de Cupertino, e repeti a entrevista na minha cabeça. Parecia que eu tinha ido bem, mas não queria me afobar. Eu não queria ficar desapontado caso eles me rejeitassem.
Acabou que fui bem. Recebi um telefonema no mesmo dia, e me disseram que eu estava dentro. Eles me ofereceram um contrato como designer mobile. Uau! Estava tão empolgado que gritei quando desliguei o telefone. Meus pais e minha família estavam super animados quando contei. Eu publiquei a notícia no Facebook, e nunca recebi tantas curtidas e parabéns antes. Recebi mais curtidas quando anunciei que tinha conseguido um trabalho na Apple do que quando minha filha nasceu. Pessoas com quem eu tinha feito amizade anos atrás e que nunca tinham falado comigo me mandaram mensagens. Eu mudei meu título no Twitter, e de repente pessoas que não me seguiriam uma semana antes começaram a me seguir. As pessoas estavam tão empolgadas por mim que resolvi sair para beber e comemorar. Me senti bem com as pessoas comemorando comigo essa conquista.
Eu não conseguia dormir nas noites anteriores ao meu primeiro dia na Apple. Estava nervoso e empolgado. Era como se recebendo uma oferta da Apple, meu talento como designer tivesse sido reconhecido. Pensei na longa e estranha jornada que me levou até a Apple. Pensava "O que isso significa para minha carreira? Em que vou trabalhar? Onde isso vai me levar? Será que eu vou terminar algum dia o app de iPhone em que estou trabalhando?" Eu tinha tantas perguntas.
Então eu comecei. Imediatamente fiquei nervoso com as horas rígidas e o longo trajeto até o trabalho, mas finalmente eu seria uma daquelas pessoas importantes da tecnologia, indo e voltando de São Francisco em um ônibus privado com Wi-Fi. Eu dificilmente (quase nunca) via minha filha durante a semana, porque as horas eram muito inflexíveis. Também sofri um corte salarial significativo, mas pensei que eu estava fazendo um investimento de longo prazo ao trabalhar em uma empresa tão prestigiosa. A entrada era super bagunçada, e eles tinham tantas senhas, contas e logins que levou quase um mês para eu acessar o servidor. Havia reuniões toda hora que prejudicavam a produtividade de todos, mas parecia ser um mal necessário numa companhia tão grande e com produtos de tamanha qualidade. Tudo era um pouco chato, mas nada que fosse um grande problema no longo prazo, pensei.
Então meu chefe imediato (conhecido na Apple como produtor), que tinha o hábito de fazer insultos pessoais disfarçados de piada para qualquer um abaixo dele, começou a fazer insultos diretos e indiretos para mim. Ele me lembrava de como meu contrato não seria renovado caso eu fizesse ou não fizesse certas coisas. Ele ficava nas minhas costas (literalmente) e me pressionava para terminar tarefas simples de design que ele sentia que precisavam ser examinadas urgentemente. Ele era democrático com seus comentários grosseiros, mas não me fazia sentir melhor quando ele os direcionava aos membros da minha equipe. Eu me sentia mais como um adolescente trabalhando num emprego ruim do que um profissional em uma das maiores empresas do mundo.
Tentei pensar com calma e olhar o lado bom das coisas. Eu estava trabalhando na Apple com designers e produtos de nível mundial. Meus colegas tinham olhar refinado para o design, melhor do que qualquer um que havia encontrado antes. Eu amava a atenção para os detalhes que a Apple coloca em seu processo de design. Cada pixel, tela, característica e interação eram consideradas e depois reconsideradas. A comida no café era ótima, e eu gostava do meu novo iPad Air. Mas as piadas, insultos e negatividade do meu chefe começaram a me distrair do trabalho. Meus colegas que se mantinham firmes e definiam limites pareciam entrar em uma lista negra e ficavam fora do círculo de pessoas que puxavam o saco do produtor. Eu comecei a me sentir uma daquelas pessoas que esperam desesperadamente pela sexta-feira, e eu odiava as noites de domingo. Poucos de meus amigos e familiares queriam ouvir que trabalhar na Apple não era tão legal. Eles adoravam dizer, "Faça pelo seu currículo" ou "Você tem que ser o maior" ou "Você só começou. Você ainda não pode sair."
Esta manhã eu levantei um pouco mais tarde que o normal, e perdi o único ônibus da Apple que parava na minha casa. Acabei dirigindo para o trabalho num trânsito lento. Eu estava feliz por não ter que dirigir todo dia. Mas ainda pensava que preferia levar minha filha para sua pré-escola, como eu fazia antes de começar na Apple. Eu cheguei no trabalho e imediatamente fui para outra reunião. Fui bem, e então voltei para minha mesa. Sem nem dar oi, meu chefe veio com outro insulto estranho disfarçado de piada. Eu tentei ignorar e voltar para o trabalho, mas percebi que não conseguia. Eu estava pensando demais em como eu deveria lidar com a situação. Eu conseguiria chegar até o fim do meu contrato? Eu poderia ser deslocado para outra equipe? Como eu conseguiria um trabalho novo se estivesse sempre preso a Cupertino? Talvez eu devesse socar meu chefe no nariz? Não faça isso, Jordan.
Então, no almoço, eu esvaziei meu iPad, coloquei os arquivos em que estava trabalhando no servidor, deixei minhas coisas na mesa, peguei meu carro e dirigi para casa. Deixei uma mensagem para meu chefe dizendo que ele é o pior chefe que eu encontrei em minha carreira, e que eu não poderia mais trabalhar para ele, por melhor que a Apple parecesse em meu currículo. A empresa terceira que me contratou estava furiosa porque eu prejudiquei sua relação com a Apple, e claro que eles sentiam que eu não havia agido profissionalmente. Eu não estou orgulhoso por ter saído andando, e eu me sinto terrível por ter destruído a longa relação que eu tinha com o recrutador que me ajudou com a entrevista. Isso tudo é difícil de engolir porque eu estava tão empolgado em trabalhar para a Apple. Não tenho certeza se isso vai me assombrar ou não, mas tudo que sei é que eu queria muito trabalhar para a Apple, e agora nem tanto.
Jordan Price

22 abril 2014

Toma um elogio pra você

Tem duas coisas nessa vida que me fazem querer enfiar a cabeça num buraco e desaparecer: a primeira é quando cantam "Parabéns pra você" no meu aniversário, a segunda é quando me fazem um elogio. Eu não sei o que fazer em nenhuma das duas situações. Não sei onde colocar as mãos, o que fazer com o afago ao ego, onde enfiar a cara - se é realmente num buraco - ou como devo responder. Simplesmente não sei receber elogios!

Você ganha o respeito e a admiração de alguém, mas não sabe o que fazer com isso, se sente incomodado com os aplausos e a paparicação, mas também não quer deixar quem te proferiu tanta gentileza numa saia justa daquelas bem desconfortáveis. A verdade é que ninguém quer gerar esse efeito quando elogia alguém, mas sabe como é... Numa hora dessas não dá pra fugir do "Ah, que isso... são seus olhos!" e aquela cara de tacho famosa e envergonhada.

Imagina a cena: você tá usando aquela roupa nova, que custou o olho da cara, durante uma reunião de família e, um dos seus parentes, resolve dizer que você tá linda. Ao invés de encher o peito e se sentir a tal, você não apenas não tem a menor ideia do que fazer com a bajulação, mas aproveita a oportunidade pra se jogar na lata do lixo, junto com o elogio. "Com essa coisa aqui? Ih, faz tempo que tenho, comprei numa liquidação... Decidi colocar na pressa e nem gosto tanto assim. Mas que bom que gostou". Quem nunca fez isso, que atire a primeira pedra na própria cabeça! Depois dessa explicação desnecessária, o parente tão atencioso e simpático se arrepende de ter abrido a boca porque acha que, ao invés de elogiar, te ofendeu. Resultado: as duas partes tomam o elogio como um insulto, fim do parentesco, um beijo e até o Natal.

O trauma de receber elogios vem, muitas vezes, da infância. Quando surgem os primeiros elogios, a criança tem duas opções: ou usar o que ouviu como um estímulo pra ser sempre melhor e imbatível ou entender aquilo como uma pressão, pra ter que ser sempre melhor e imbatível. Quando vai ver, não sabe mais o que fazer com o elogio, se dobra e põe no bolso ou se manda pendurar na porta de casa.

Fomos ensinados, a vida inteira, sobre as virtudes da modéstia. Daí vem alguém, fala dos seus lindos olhos, de como você joga bem um certo esporte ou como seu novo corte de cabelo te rejuveneceu uns 20 anos e você, sem saber o que fazer com aquela informação preciosa, acaba se passando por grossa. Enquanto os mais narcisistas não apenas a-m-a-m os elogios, mas esperam por eles, nós - candidatas a Miss Qualquer Coisa - somos reduzidas a gelatina quando chamamos a atenção pelos nossos atributos, habilidades ou comportamento, como se aquilo jamais pudesse ter sido notado.

E nessa briga entre a modéstia e a educação, de que lado a gente tem que ficar, no final das contas? Bom, quando um elogio é sincero, feito de coração, sem nenhuma dose de sarcasmo ou ironoa, o melhor a fazer é agradecer com um bom "muito obrigado". O que você disser depois disso, vai depender da intimidade que tem com a pessoa ou com o seu nível de timidez. Não discorde do elogio, aceite e faça aquela cara de aprovação, não se faça de surda só pra ouvir o elogio novamente, não peça explicações, apenas dê uma resposta curta e simpática. Se nada disso te fizer se sentir confortável, apele pro humor e manda o clássica "Ah, são seus olhos".

Todo elogio é um julgamento e é OK não saber como receber. Afinal, ninguém gosta de ser avaliado, mesmo que a nota em questão, no final, seja super positiva.

18 abril 2014

No controle, os manipuladores

O cuidador emocional é chamado assim, pois é o vigilante dos sentimentos, das necessidades e desejos de um manipulador emocional. É ele que cede aos desejos do manipulador, abrindo mão dos seus próprios desejos e até mesmo das suas necessidades de bem estar. Eles cedem apenas “pra manter a paz” e agradar a outra pessoa – sem que isso resulte em qualquer melhora no relacionamento.
 
Esses cuidadores são carinhosos, preocupados, generosos e pessoas de extrema confiança. Eles querem agradar os outros de coração e são, em sua grande maioria, ótimas pessoas. Porém, podem ser facilmente manipulados pelos outros, porque tendem a ser passivos e bastante complacentes, além de sentir um alto grau de culpa e obrigação, ou até mesmo medo da raiva que os outros podem sentir. Um cuidador emocional prefere ser ele a se sentir magoado, bravo ou deprimido a fazer com que a pessoa com quem ele se importa passe por qualquer um desses sentimentos. Isso faz deles pessoas extremamente vulneráveis e acabam ficando nas mãos daqueles que gostam de tirar vantagens, além de serem destratados no relacionamento com pessoas que são extremamente egoístas e obstinadas.

Muitos desses cuidadores nem se dão conta do quanto abrem mão das coisas deles em prol dos outros. Quando percebem, eles podem se tornar ressentidos e bravos – mas as chances de continuarem agindo da mesma forma são grandes. Tais clientes sempre me perguntam, “Por que escolhi estar num relacionamento com alguém que é tão egoísta?”. A verdade é que a personalidade dessas pessoas funciona como um imã que atrai os manipuladores emocionais. No começo, o relacionamento parece maravilhoso – uma pessoa que adora dar e outra que gosta de receber. Infelizmente, muitas vezes quem recebe só quer receber mais, e da maneira deles. Enquanto que o cuidador, secretamente, espera que as coisas vão se equilibrar no decorrer do relacionamento, o que nunca acontece.

(Não acredito que esses cuidadores emocionais e os co-dependentes sejam a mesma coisa: a maior parte dos cuidadores é altamente prática, positiva e prestativa tanto no trabalho quanto com os amigos – enquanto que os co-dependentes são tipicamente passivos, não se acham válidos, acreditam não ter poder ou competência na maior parte de seus relacionamentos).

Quando os cuidadores estão num relacionamento com pessoas que respeitam, valorizam e recompensam positivamente seu carinho, eles conseguem fazer com que suas necessidades sejam satisfeitas e há um equilíbrio no dar e receber. E esses cuidadores têm, geralmente, relações muito positivas ao longo da vida. Mas num relacionamento mais íntimo com um manipulador os valores e crenças desses cuidadores não são valorizados no que diz respeito a dar e se preocupar – e o medo que eles têm da raiva, hostilidade e rejeição de seus manipuladores fazem com que se tornem reféns. Quando o cuidador discorda ou quer algo diferente da vontade do manipulador, eles nem sempre conseguem estabelecer os limites, colocar-se ou resolver as diferenças porque o nível do “combate” passa longe da habilidade e dos valores que eles têm. Ficam à mercê de um parceiro, cujo objetivo é ter o que querem, não importa como ou se irão magoar alguém.

Qual é o preço que se paga por ser um cuidador emocional num relacionamento com um manipulador? Perda de autoestima, aumento da ansiedade e depressão, um crescente sentimento de falta de esperança, exaustão, sensação de vazio e muita mágoa, medo e frustração. É muito comum que os cuidadores se sintam presos no relacionamento pelo senso de lealdade que tem e a relutância em magoar a outra pessoa, não importa o que essa outra pessoa tenha feito.

Ao invés de reagir com brigas, a maior parte desses cuidadores responde a esses perigos, a raiva e a hostilidade ficando quietos. A respiração fica mais fraca, eles congelam, e esperam o perigo passar. Esse tempo que passam quietos deixam seus pensamentos  confusos, os músculos ficam tensos e até o nível de digestão ou batimentos cardíacos diminuem. Essas reações podem causar problemas físicos como enxaquecas, indigestão, insônia, dor nas costas, nuca e ombros, e um total sentimento de impotência.
E como alguém consegue deixar de ser um cuidador emocional? A coisa mais importante a se fazer é se valorizar e tratar-se com o mesmo respeito que dá aos outros. Valorize suas próprias vontades, desejos e preferências. Imponha limites que não dão a chance dos outros invalidar você, ou deixa-lo pra baixo ou ignorar o que é importante pra você. Aprenda a brigar e escapar eficientemente quando estiver em perigo.


Preocupe-se com você mesmo antes de qualquer coisa e só depois ofereça seu carinho aos outros. Isso pode mudar sua vida...

17 abril 2014

De pai pra filha

Esta é uma carta escrita por um pai pra filha dele, sobre o futuro marido dela. Mas que toda mulher deveria ler...

Querida filhinha,

Recentemente, sua mãe e eu estávamos fazendo uma pesquisa no Google. Quando estávamos na metade da pergunta que íamos fazer, o Google nos deu uma lista com as pesquisas mais populares no mundo. No topo dela estava o seguinte: "Como mantê-lo interessado".

Aquilo me estremeceu. Acabei navegando por incontáveis páginas e artigos sobre como ser sexy, sensual, que diziam se a mulher deve oferecer cerveja ou sanduíches e as diversas coisas que ela pode fazer pra que ele se sinta inteligente e superior.

Fiquei muito bravo.

Minha pequena, não é, nunca foi e nem nunca será seu trabalho "mantê-lo interessado".

Filha, sua única função na vida é saber, bem dentro de você - naquele lugar inabalável, que não pode ser tocado pela rejeição, egos e perdas - que você vale a pena. Não apenas pra um cara qualquer, mas pra quem quer que seja. Se puder se lembrar de que todos são dignos de interesse, sua batalha na vida estará ganha. Mas isso seria assunto pra outra carta.

Se puder acreditar que você vale a pena, você será a pessoa mais atraente do mundo e irá atrair um cara que não será apenas interessado em você, mas que será capaz de passar a vida inteira dele investindo todo o interesse dele em você.

Querida, quero lhe falar sobre esse menino, que vai saber o quanto você é interessante:

Não me importa se ele tem bons modos ou se apoia os cotovelos na mesa. O que ele deve fazer é prestar atenção em como você fica bonita quando sorri, sem conseguir tirar os olhos de você. Para mim, não vai ser importante se ele não puder jogar aquela partida de golfe comigo, contanto que ele tenha tempo pra brincar com os filhos que um dia vocês dois terão e que serão parecidos com você, com os mesmos defeitos e qualidades.

Ele não precisa valorizar o que carrega na carteira, ele tem que valorizar o que tem no coração e isso sempre o levará de volta a você. Não estou preocupado se ele será forte, ele precisará te dar espaço pra que seja forte também e mostre a força que tem em seu coração.

Não ligo em quem ele votará, ele precisa eleger você, todas as manhãs, como a mais importante. A cor da pele não irá me dizer nada, assim como a sua religião. O que ele precisará é ter sido criado pra valorizar o que é sagrado e saber que todos os momentos da vida dele ao lado da sua serão extremamente sagrados também.

No final, minha filha, se você encontrar um homem assim e, ainda assim, eu e ele não tivermos nenhuma semelhança, teremos a coisa mais importante do mundo em comum: VOCÊ. Porque no final, querida, a única coisa que deveria ter pra "mantê-lo interessado" é ser o que você já é.

Seu eterno cara interessado,

Papai.

15 abril 2014

Quem é quem pra falar de alguém?

Ultimamente as pessoas andam especialistas numa arte bem inútil: a de julgar os outros. Gostam de comentar o comportamento alheio, mas são péssimas em conhecer a história por trás de cada um. Aliás, não demonstram interesse nenhum. Julgar, falar, palpitar, opinar é mais fácil, dá menos trabalho... Julgam porque têm medo de serem julgadas. Afinal, qual seria a graça da vida de gente assim se eles não fossem os donos da verdade ou os reis e rainhas da perfeição, não é mesmo?

A pergunta é: quem é quem pra falar de alguém se somos todos imperfeitos? Cada um é do jeito que é porque a vida nos "transformou" nisso, nessa neurose, numa loucura, numa pessoa bacana. Uns são talvez meio grossos, reservados, secos, frios ou preferem esconder aquilo que não quer que saibam por atrás de um jeitão engraçado, um corpo malhado ou um jeito descolado demais.

Dizem que pra gente entender as atitudes dos outros é preciso calçar os sapatos deles e andar uma boa parte da estrada com eles nos pés, pra só então poder palpitar alguma coisa. A verdade é que, quando se descobre o que há por trás de alguém, o sentimento passa a ser o de respeito, se não o de admiração.

Eu tenho minhas neuras. E não me envergonho delas. O que você acha do meu jeito, comportamento ou maneira de agir, não é problema meu. Por exemplo, não confio em ninguém, absolutamente em ninguém! Não é que confio um pouco ou confio desconfiando. Não... Passei a não acreditar nos outros depois de umas puxadas de tapete que levei há poucos anos. A primeira veio de um ex-namorado, que me enfiou no meio do relacionamento de 7 fracassados anos dele, por 3 longos anos da minha vida, mas "esqueceu" de me avisar que era comprometido. A outra rasteira veio da minha irmã, que resolveu dar em cima de outro cara com quem me relacionei. Traições me transformaram nesse ser desconfiado que sou hoje, que suspeita de tudo e de todos. Mais esperta, talvez? Mas, neurótica pros olhos de muitos. O julgamento deles não me interessa. Eles não têm o direito de dizer como devo ou não agir, sem ter vivido o que vivi.

Quem insiste em sentenciar os defeitos dos outros tem sempre algo a esconder. Devemos parar com essa mania de julgar, porque o errado e o certo já existem. Julgar alguém não define quem aquela pessoa é, mas quem você é. E com certeza já ouviu isso por aí. A forma mais elevada da capacidade humana é a de observar sem levantar julgamentos, sem arbitrar. O mundo anda habitado por gente demais que exige dos outros aquilo que são incapazes de praticar.

Antes de abrir a boca pra classificar o que o outro faz, lembre-se que o que você condena neles é o que você omite em você. Há uma história por trás de cada pessoa, e isso inclui você, e uma razão pela qual ela age de uma determinada maneira. E quem somos nós pra condenar o que fazem, se não gostamos nós mesmos de ser condenados.