Imagino a professora dele... |
Outro dia, estava dando uma aula sobre política e a história dos
principais presidentes americanos pra uma turma de adolescentes de 12 anos. Não
demorou muito pra um dos mais inquietos levantar uma questão: “Mas todos eles
estudaram Direito ou tem curso superior completos em universidades como
Harvard? É verdade que o Lula nem completou o ensino médio?”. Eu, apenas,
sorri.
Poucas aulas antes, tínhamos visto a história de Abraham
Lincoln e a luta
dele para acabar com a escravidão naquele país, em 1863. - Antes de você se indignar com o que dou em sala e porquê raios não
estaria ensinando a história do Brasil num momento como este, só pra deixar
claro: dou aulas de inglês. - Mais uma vez, não
precisei incitar nada, pro meu sagaz aluno mandar outra: “Quer dizer que
demorou menos de 2 séculos para que os negros, antes escravos, pudessem se
tornar presidentes dos Estados Unidos e com instrução superior? Que evolução!”.
Fiz o quê? Sorri de novo, ué.
Esta semana, um rapaz com mentalidade estreita questionou os
motivos por eu não fazer parte das manifestações, por não sair às ruas e, foi mais
baixo ainda, perguntou o que eu contaria aos meus netos sobre este momento da história do Brasil. Primeiro: não penso em
ter filhos, logo, isso não me leva a ter netos. Segundo, expliquei a ele que
estava trabalhando, logo, não poderia estar nas ruas. Ele insinuou que eu era
uma baita egoísta e que estava trabalhando só pra mim. Respondi: “Meu amor, sou
professora. E você, faz o que pelo país mesmo?”. Sem responder minha pergunta,
ele mandou outra: “E você ensina seus alunos a brigarem pelos direitos deles?”.
Como ele não deve ter concluído o ensino médio, assim como o ex-presidente do
nosso – agora – tão amado país, não deve saber que certas coisas não se ensinam
na escola. Não se coloca na cabeça de alguém que pagode é uma merda. Que evangélico é tudo fanático. Que político é corrupto ou que é de direito dele reclamar o que não o agrada.
Não preciso ensinar meu aluno a pensar. Isso se estimula.
Como? Bombardeando-o com informações, imparcialmente. Só assim, um cidadão, por mais novo que seja, é capaz de construir senso crítico e, assim SOZINHO, formar sua
própria opinião. Pro cidadão medíocre citado acima eu até poderia ter “perdido”
meu tempo e dado a ele uma lição de moral, mas preferi ignorá-lo, porque gente
pequena tem preguiça de pensar. Engole o primeiro discurso pobre que lhe é
apresentado e toma isso como verdade, enche a boca e o peito pra falar daquilo
que não sabe, como se estivesse coberto de razão. Já dizia um filósofo, que
agora me fugiu o nome: o problema da atualidade é que tem muito ignorante cheio
de respostas e muito inteligente ainda cheio de dúvidas.
Ensino não apenas o direito aos meus alunos, mas os deveres
como cidadãos também. Na semana passada, com a ajuda deles, conseguimos coletar
mais de 2.500 peças de roupas pra doação. Enquanto ele, o cidadão medíocre, provavelmente,
assistia televisão e xavecava meninas marombadas no Facebook. Eu não costumo gritar pelo meu país, ir pra rua, quebrar patrimônios, ofender os outros. Fazer algo por ele
fala muito mais alto e cala muita boca por aí.
O problema é que, mesmo ensinando apenas uma segunda língua,
fica difícil controlar a cabeça de quem frequenta escola, conhece outras
realidades, e procura melhorar não apenas sua cultura, mas também sua opinião. Acho
meio revoltante ver, hoje em dia, com tanto acesso à informação (basta apertar o
ON do seu computador pra receber uma enxurrada de notícias), pessoas dizendo que a mídia, esse ou aquele canal “está
manipulando a informação”. Não é a mídia que manipula o povo. É o povo burro
que prefere jogar a culpa nos outros a justificar a sua falta de ideologia, informação ou
preguiça de pensar.
É que pensar dá trabalho e percebi esses dias que o brasileiro não é um grande fã de arregaçar as mangas...
É que pensar dá trabalho e percebi esses dias que o brasileiro não é um grande fã de arregaçar as mangas...
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